quarta-feira, 23 de maio de 2012

    Quanto mais penso na vida, mais percebo o quanto paradoxal esta é. Tudo acaba tomando uma beleza atroz, quando visto com cuidado, isso confunde, é belo, mas confunde. E o que há de mais intrigante na vida, e nas nossas próprias atitudes, é que não percebemos nem o incrivelmente belo, nem o vergonhosamente atroz.
    Passamos todos os dias por incríveis paisagens, belos lugares, belos monumentos,diferentes arquiteturas, um mundo inteiramente novo, mas que nos parece tão familiar, que não vemos o quando belo realmente são, muitas vezes nem lembramos que passamos por aquele lugar todos os dias. Da mesma forma que lidamos belas paisagens todos os dias sem nem perceber, presenciamos cenas bárbaras, que já nos parecem normais.
     Ver um morador de rua, já é tão normal  que lidamos com a situação com naturalidade, como se nada estivesse acontecendo. Atitude chamada, segundo Georg Simmel, Blasé. Ou seja, nos acostumamos. Com o belo, e com terrível. Com o passar do tempo, passamos a lidar com ambos como se fossem naturais. Uma perda de valor social, eu diria. Não valorizamos mais nem o naturalmente encantador, nem o naturalmente aterrorizante. Passamos a lidar com tudo como coisas triviais.
    É quase como uma capitalismo mental. Passamos a não dar importância ao que não é novo para nós. Perdemos o tato para certas coisas. Aquela mão de tão usada, cria calos, perde a sensibilidade. Deixamos, assim, de perceber o belo paradoxo, que é a vida. Que, consegue carregar em si, dois pólos, aparentemente excluentes, em uma coisa só.

Passagens...

Às vezes vale mais a pena deixar o novo entrar e preencher o lugar que o 'velho' ocupava. Às vezes a gente tem que aprender a guardar algumas coisas no coração, e deixar que as coisas ao nossos redor mudem. Mudanças às vezes são necessárias. Isso não significa que as coisas e as pessoas boas que passaram por nossa vida não valeram apena.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Palerma (Tchékhov)

        Dias atrás mandei chamar a governanta dos meus filhos, Iúlia Vassílievna, ao meu gabinete. Precisávamos acertar contas.
        - Sente-se, Iúlia Vassílievna.! - eu disse. - Vamos acertar nossas contas. A senhora provavelmente necessita de dinheiro, mas tem cerimônia demais para pedir... Vamos lá... Nós combinamos trinta rublos por mês...
        - Quarenta...
        - Não, trinta... Eu tenho aqui escrito... Eu sempre paguei trinta para as governantas... Então, a senhora ficou aqui dois meses...
        - Dois meses e cinco dias...
        - Dois meses exatos... Eu tenho aqui anotado. Portanto, a senhora tem a receber sessenta rublos... Temos que descontar nove domingos... pois a senhora não estudou com Kólia nos domingos, somente passearam... e houve ainda três feriados...
        Iúlia Vassílievna ficou vermelha e começou a repuxar os babadinhos de sua roupa, mas não disse uma só palavra...
        - Três feriados... Consequentemente, vamos tirar doze rublos... Durante quatro dias Kólia ficou doente e não teve aulas... A senhora estudou só com Vária... Três dias a senhora teve dor de dente e minha esposa permitiu que a senhora não desse aula depois do almoço... Doze mais sete- dezenove. Subtraindo, restam... hum... 41 rublos. Certo?
        O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou vermelho e cheio d´água. Seu queixo tremeu. Ela deu uma tossida nervosa, assoou o nariz, mas- nem uma palavra!
        - Na véspera de ano-novo a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. Vamos tirar dois rublos... A xícara custa mais do que isso, era herança de família, mas... deixa pra lá! Não vamos fazer questão disso! Adiante: devido à sua falta de atenção, Kólia subiu numa árvore e rasgou seu casaquinho. Vamos tirar dez... A arrumadeira, também devido à sua falta de atenção, roubou umas botinas de Vária. A senhora deveria cuidar de tudo. É para isso que recebe salário. Então, vamos tirar mais cinco... No dia sete de janeiro a senhora pegou adiantado comigo dez rublos...
        - Eu não peguei!- sussurrou Iúlia Vassílievna.
        - Mas eu tenho aqui anotado!
        - Então, está bem... Que seja.
        - De 41 vamos subtrair 27- restam catorze.
        Os dois olhos de Iúlia Vassílievna encheram-se de lágrimas... No seu belo e alongado narizinho apareceram gotas de suor. Pobre menina!
        - Eu só peguei uma vez- disse ela com voz trêmula. - Peguei com a sua esposa três rublos... Não peguei mais...
        - É mesmo? Ora, isso não está anotado! Tirando três de catorze, sobram onze... Aqui está o seu dinheiro, caríssima! Três... três... três... um... um... Tenha a bondade de receber!
        E lhe entreguei onze rublos... Ela pegou o dinheiro e com os dedinhos tremendo meteu-o no bolso.
        - Merci - sussurrou ela.
        Levantei-me de um salto e comecei a caminhar pelo gabinete. Estava indignado.
        - Merci por quê? - perguntei.
        - Pelo dinheiro...
        - Mas eu a roubei, com os diabos, eu a assaltei! Acabei de roubá-la! Por que merci?
        - Nos outros lugares eles não pagavam nada...
        - Não pagavam? Então não é de se estranhar! Eu estava brincando com a senhora, estava lhe dando uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os oitenta rublos! Estão aqui preparados, neste envelope! Mas é possível ser assim tão pateta? Por que a senhora não protesta? Por que fica calada? Será que neste mundo é posssivel não ser atrevido? É possivel ser tão palerma? 
        Ela deu um sorriso azedo e eu li no seu rosto: "É possivel!"
        Pedi desculpas pela cruel lição e, para sua grande surpresa, entreguei-lhe todos os oitenta rublos. Ela disse um merci tímido e saiu... Fiquei olhando quando ela se afastava e pensei: "Como é fácil ser poderoso neste mundo!".