domingo, 15 de abril de 2012

Sobre a natureza, e uma máquina desprendida da matéria.

Há um tempo atrás parei de escrever. Não sei, acho que por vergonha. Uma neurose terrível, de tanto ler ótimos autores, comecei a ter vergonha de tudo que escrevia, me julgava inferior... incapaz de escrever coisas boas o bastante. É triste quando a auto-crítica faz alguém lutar contra a sua natureza. Minha auto-crítica tornou-me menor, aos meus olhos, do que qualquer pessoa que se arriscasse a rabiscar algo em um guardanapo.
Tentei mostrar a mim mesma, que poderia ser melhor em algo, que essa fome escrever poderia ser saciada por outra coisa. Fui de um polo a outro, tentei saciar minha fome emocional com coisas racionais, mas é o mesmo que tentar beber gasolina no lugar de água, não dá certo.
Acredita-se por aí, que a natureza humana depende do seu estado físico, por exemplo: se um homem tem fome, sua natureza é querer comida. Se um homem tem frio, sua natureza é desejar se aquecer. Caso todos os aspectos e desejos físicos estejam devidamente saciados, essa natureza alcança um estado desprendido da matéria e ligado intimamente com os pensamento.
Talvez, a ideia de Hugo Cabret esteja certa, e o mundo seja como uma grande máquina, onde cada peça, cada pessoa, tem uma função específica, uma natureza. Não sei se minha natureza é escrever, mas se não for, insiste em ser, apesar de tentar resistir ao peso da vergonha de minhas palavras, que só me mostram o quão pequena eu sou dentro de um mundo de imensidão, sempre acabo me refugiando nelas.
Acabei por aceitar, não vou tentar mais fugir, nem me cobrar tanto, apenas escrever, se é isso que eu faço, se é essa minha natureza, assim seja. Até porque, como diria Hugo, o mais triste de máquinas quebradas é que perdem a razão do existir, e se é escrever que me faz sentir em pleno funcionamento, que assim seja!